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sábado, 4 de outubro de 2008

A Vaquinha Malhada

Malhada era uma vaquinha que vivia no interior. Seu sonho era um dia ir para a cidade, montar uma fábrica de leite onde teria seu negócio próprio. Não queria mais trabalhar para os outros, pois achava uma perda de tempo. Suas amigas, porém, se contentavam com aquela vida, e sempre escolhiam o ordenhador como funcionário do mês, embora só existisse um ordenhador para todo o sítio. Quando malhada expunha suas idéias para as amigas, era muito comum ouvir palavras desestimulantes, seguidas de um “para quê isso?” e muitas vezes com algumas frases “ela nunca está contente com nada”. Malhada estava contente, mas não realizada. Sentia que faltava algo a mais e sua vida ali não iria mudar. A eleição do ordenhador do mês já tinha dado o que falar. Ela sempre brigava com as amigas para que não escolhessem o Seu Zé como ordenhador, pois ele sempre machucava as vacas e não tinha o menor interesse em melhorar, fora os outros problemas que ele tinha. As amigas de Malhada não ouviam muito e se contentavam em apenas serem ordenhadas todos os dias, mesmo que as formas eram toscas.

Malhada não acreditava naquela passividade e tentava de todas as formas convencer suas amigas a não ficarem felizes com o Seu Zé, obrigando o dono do sítio, o Doutor Manoel Carlos, a trocá-lo por alguém mais disposto, mais feliz com sua ocupação e que faria jus a seu emprego. As meninas, entretanto, riam dela e falavam que não iria adiantar nada mostrar seu descontentamento para com quem estava agora no comando, pois de nada iria mudar nem adiantar. Malhada ficava desolada e sabia que sozinha era voto vencido. Não queria ir embora dali, pois gostava daquele pasto. Gostava da casa do sítio e das suas amigas que viviam com ela.

Tentou algumas explicações longas sobre como o serviço deveria ser, sobre como elas deveriam ser tratadas. Seus longos discursos só serviam para aumentar o sono das amigas, e muitas vezes elas preferiam nem ouvir, saindo de fininho quando Malhada começava a ladainha. Um belo dia chegou uma nova vaca no sítio, jovem ainda, chamada Jocasta. Suas idéias eram parecidas com as de Malhada, e ficaram muito amigas, discutindo assuntos que antes eram desanimadores para Malhada e agora despertava o interesse da nova moradora do sítio. Concordavam inclusive na escolha do novo ordenhador, que deveria ser feita. Jocasta sentiu o mesmo desafeto pelo Seu Zé, e ficou evidente para ela que ele não cumpria com suas funções, e ainda não tratava as vacas com o devido respeito. Agora eram duas vozes que queriam mudar. A esperança renasceu no coração de Malhada, com uma aliada forte que despertava o interesse das amigas. Fizeram o que fizeram e conseguiram convencer que deveria haver uma eleição. Aquele seria o primeiro passo para que todas pudessem votar em escolher ou não Seu Zé como funcionário do mês.

A campanha começou um mês antes das eleições. Malhada e Jocasta faziam muitas palestras para convencer todas as outras vacas em que era preciso uma mudança, era preciso avançar para o futuro e exigir seus direitos. Não queriam mais aquela vida torpe de destrato, de atrasos na ração, de horários tresloucados, e de todos os problemas que enfrentavam com o Seu Zé, que para elas já deveria ter sido mandado embora, porque elas sabiam e já tinham visto ele roubando o Doutor Manoel Carlos, levando um “por fora” em suas negociações com os produtos do sítio. O dia da votação chegou e todas estavam animadas. Todas votariam SIM ou NÃO para a permanência do Seu Zé. A vaca mais velha da turma, a dona Clotilde, seria a responsável pela contagem dos votos. Então, após alguns minutos de votação deu-se a contagem. Quantidade de NÃO: Dois votos. Quantidade de SIM: quatorze votos. Em branco: Sete votos. Malhada não podia acreditar. Ela e Jocasta ficaram perplexas. Somente as duas votaram NÃO! Aquilo era um absurdo. Teriam que conviver com Seu Zé por ignorância da maioria, que preferia não fazer nada a tomar as rédeas de suas vidas em benefício próprio. Abalada, Malhada se afastou e ficou olhando o horizonte, absorta em pensamentos. Jocasta se aproximou lentamente, sentindo também uma profunda derrota estampada na cara. Ficaram as duas ali desoladas e só restava a Malhada ir mesmo para a cidade, tentar uma vida nova, longe da casa que gostava, do sítio, das amigas. Não conseguiu convencer ninguém, que agora riam dela às escondidas, chamando-a de sonhadora. No final, soube que a vida consiste em fazer a sua parte, e que também todos sofriam pela decisão da maioria. No final das contas, eram todas gado.

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

O Brasil de cada um

Vejo agora, próximo às eleições, que existem candidatos que pouco fizeram ou fizeram ridículo no seu último mandato estão liderando as pesquisas de voto. O TSE conseguiu finalmente colocar as informações de cada candidato quanto aos processos jurídicos que cada um carrega nos ombros, mesmo que este processo ainda não tenha sido julgado, mas que ao menos mostra a acusação contra aquele que pretende presidir um determinado posto público. Isso é muito bom, embora tardio, porém não é suficiente. Os brasileiros não dão valor ao Brasil. Não se sentem pertencentes a uma nacionalidade. Por isso existe a beleza da frase “Não somos xenofóbicos”, mas existe também a feiúra da frase “Não temos identidade”. Num país multicultural como o nosso, as identidades se perdem em meio a tanto estrangeirismo. Muitas vezes estrangeirismo dentro da própria casa. Para alguns que se perderam em sua ascendência, restou o labirinto de pensamento no que se diz pertencente a um povo, uma sociedade, que deveria lutar pelo certo e não pelo jeitinho.

Lá fora não tem jeitinho. Lá fora funciona direito. Quase como um “cada um por si”, o brasileiro vai levando a vida preocupado com suas coisas e despreocupado com quem ocupa o governo. Pelo pensamento de que “rouba mas faz”, “não é da minha conta”, “todos são iguais mesmos”, etc, etc, mergulhamos num profundo oceano de espertos que querem se dar bem e mamar nas tetas da pátria, às custas de otários que pagam seus impostos no final do mês. Percebo que a maioria que paga esse imposto se importa sim com o voto, porém o Brasil é composto pela maioria que não paga esse imposto, logo não se importa. Ou não paga porque sonega ou não paga porque é isento. E o recheio da bolacha é pressionado dos dois lados, do rico e do pobre, e tenta gritar para aqueles que não querem escutar.

Talvez se conseguíssemos construir um patriotismo mínimo que nos levasse a nos importarmos com o que acontece na nossa rua, no nosso bairro, na nossa cidade, no estado e país, talvez assim teríamos a coragem de cobrar de quem está pouco se importando. Talvez falaríamos àquele que achou um papel no chão de um candidato e votou neste para não fazer mais isso. Talvez não aceitaríamos votar em nosso parente sabendo que este só quer se dar bem, e deixaríamos isso claro para ele. O governo teria realmente que fazer a parte dele. Recentemente saiu uma matéria na Folha sobre uma pesquisa apontando que 42% dos jovens brasileiros sairiam do país. Quase a metade gostaria de se sujeitar a um subtrabalho com a oportunidade de estudar e trabalhar em outro país. Aqui não há emprego para determinadas profissões, e quando existem os salários são pífios. Não há incentivo do governo, nem nunca houve, e se mantivermos o nível dos políticos que lá estão, nunca haverá. Por isso devemos nos importar e cuidar bem do nosso voto.

Essa importância viria se nos sentíssemos pertencentes a algo ou que algo nos pertencesse. Se isso fosse nosso, brigaríamos. Se alguém mexer no meu carro eu vou me importar. Ele é meu, e suei para tê-lo. Se o Brasil fosse meu (se sentisse que fosse), eu iria me importar também. Teríamos então que constituir uma sociedade mais apegada a valores que hoje são cafonas, coisa de americano, perda de tempo. Os americanos sim constituem uma ordem de importância ao seu país. Cobram daquele que transgride, o denegridor, cobrando dele e isolando-o em muitos casos. Aqui os bons exemplos são contrários à ordem. O “esperto” é o perspicaz. O que engana é o inteligente. O que rouba, rouba mas faz. O que trafica, agrega seguidores e ganha a mulherada.

Valores tortos vindo de uma escola podre, ou da ausência desta. Ricos, pobres, classe média, todos querendo enxergar seus umbigos não podem levar isso aqui à Ordem e Progresso que estampa o símbolo nacional. Vamos tentar construir um patriotismo mínimo. O país não tem culpa, o povo sim. Por muitas vezes penso em ir embora daqui. Deixar isso para os podres, os desonestos e os que não se importam. Mas penso em minha família e amigos que deixaria. Penso que deixaria o próprio país, me acovardando diante da situação. Que a frase “sou brasileiro e não desisto nunca...” não seja agregada com a terminação “... de um dia viver longe daqui.” Faça sua parte. Incite outros a fazerem também. Seja honesto. Não é ser bobo, é ser gente. Não faça errado porque todos fazem. Tenha personalidade. Assuma o risco. Seja taxado de bobo sim, e daí? Quem te taxou? Que importância ele tem? Fazendo o seu, talvez haja espaço para o outro fazer também. Um exemplo vale por muitas teorias. Talvez aquele que tenha te taxado olhe a sua volta e perceba um monte de caras feias em sua direção. Então ele vai começar a fazer o certo, porque é o que os outros fazem. Os que não tem personalidade seguem a manada. Que esta manada dê o exemplo então.